Sob o mote “Dos compromissos à implementação”, a Brazil Climate Investment Week (BCIW) 2026 identificou um potencial acima de US$ 1,4 bilhão em oportunidades em Soluções Baseadas na Natureza (NbS) nas rodadas de matchmaking pela Capital for Climate, segundo os organizadores. A iniciativa conectou investidores a 20 desenvolvedores de projetos em áreas como agricultura regenerativa, restauração florestal de alta integridade e bioeconomia.
Alinhada à agenda de Ação Climática Global da UNFCCC, a programação de debates, realizada em São Paulo, foi estruturada em 21 plenárias divididas em três eventos: a Converge Capital Conference, o Brazil NbS Investment Summit e o painel inédito Ocean-Climate Nexus. Participaram cerca de 500 pessoas, entre investidores, gestores de fundos, representantes de empresas, do governo, de entidades filantrópicas e de organizações parceiras. Em uma agenda paralela, investidores selecionados participam de visitas de campo a iniciativas em diferentes biomas brasileiros.
Desafios e soluções para converter o potencial brasileiro em resultados tangíveis
Durante a Converge Capital Conference, um painel trouxe visões sobre o legado da COP30 e os desafios da implementação de soluções em escala. A convergência foi clara: o Brasil conta com capital disponível e um portfólio robusto de projetos, mas ainda precisa tratar a conservação da natureza como condição para qualquer estratégia de desenvolvimento e aprimorar a coordenação entre atores do ecossistema de NbS.
Ricardo Mussa, chair da SB COP30, avaliou que a COP sediada no Brasil abriu mais espaço para o setor privado, aproximou agendas e trouxe a discussão para um terreno mais firme. “O setor privado está dentro da conversa, mas ainda aquém do que poderia. Não dá para tentar atuar em dezenas de frentes ao mesmo tempo. Precisamos escolher poucas entregas realmente relevantes, saber exatamente onde queremos influenciar e trabalhar de forma pragmática para chegar lá”, defendeu.
Alessandra Fajardo, diretora-executiva técnica do Conselho Empresarial Brasileiro do Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), compartilhou a percepção de que há um crescimento do engajamento das empresas na agenda climática, o que resulta em clareza na identificação das alavancas de descarbonização em diversos setores. “Acreditamos que o setor privado compreendeu melhor os desafios, e o trabalho conjunto, envolvendo parcerias público-privadas e a sociedade civil, amplia significativamente o legado empresarial”.
Renata Piazzon, diretora-executiva do Instituto Arapyaú, mencionou que a organização levou à conferência um documento que sinaliza o protagonismo das florestas brasileiras e mostra como o país pode se posicionar globalmente como um hub de soluções climáticas na área florestal. “Estamos construindo o Movimento Floraz, que une empresas, investidores e instituições comprometidas com a restauração florestal no Brasil, voltado à competitividade, criado para entender os principais gargalos e como podemos avançar juntos”, explicou.
Marcelo Furtado, diretor-executivo do Instituto Itaúsa, chamou atenção para um aparente paradoxo: o Brasil já tem um conjunto significativo de soluções mapeadas, capital disponível e um debate amadurecido sobre clima, mas ainda avança de forma gradual na implementação em escala, especialmente quando se trata de iniciativas que colocam a natureza no centro das estratégias de desenvolvimento. “É um setor emergente, que está mudando sua mentalidade e enxergando o valor de uma arquitetura pré-competitiva para reduzir custos, compartilhar aprendizagem e acelerar o investimento”, comentou.
Capital, tecnologia e coordenação entre múltiplos atores
Renata Piazzon destacou o descasamento entre recursos disponíveis e projetos “bancarizáveis” em escala. Também chamou atenção para o potencial brasileiro em sistemas alimentares e restauração florestal, inseridos na agenda de bioeconomia. Segundo ela, o conceito ainda é pouco compreendido internacionalmente, o que exige uma nova forma de comunicar essa agenda para que o Brasil possa se posicionar como referência em transformar SbN em competitividade.
Furtado defendeu a importância do fortalecimento de ambientes pré-competitivos, em que empresas, governo, filantropia e sociedade civil compartilhem aprendizados e concentrem esforços em entregas mais consistentes, em vez de dispersar recursos em múltiplas iniciativas. Ele destacou a Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E.), que contou com uma programação intensa na COP 30. Formada pelo Itaúsa, Itaú Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale, a iniciativa mapeou 128 soluções climáticas com potencial de escala, distribuídas em eixos como transição energética, bioeconomia, restauração florestal, agricultura de baixo carbono e economia circular.
“Quando olhamos para esse levantamento, percebemos que já existem caminhos concretos para conciliar redução de emissões, proteção da natureza e geração de valor econômico. A questão deixa de ser inventar novas receitas e passa a ser como coordenar e financiar aquilo que já está à disposição”, apontou Furtado.
Alessandra acrescentou que financiamentos verdes costumam demorar mais do que linhas tradicionais, o que trava o desenvolvimento dos projetos. Como solução para acelerar a implementação, mencionou a plataforma de matchmaking lançada pelo CEBDS, criada a partir da COP30: “As empresas podem colocar seus projetos, eles passam por uma curadoria interna, então bancos e fundos de investimento conseguem filtrar os que mais lhes interessam”, explicou.
Foco, política de Estado e janela até 2030
Como síntese, Mussa voltou à necessidade de reduzir a dispersão de esforços e trabalhar com metas claras por setor, com influência direta nas negociações internacionais. Furtado acrescentou que a próxima etapa passa por aproveitar fundos e compromissos já existentes para implementar os projetos disponíveis. Em linha com essa perspectiva, Renata defendeu que a agenda ambiental seja tratada como política industrial e política de Estado, capaz de atravessar ciclos eleitorais e posicionar a natureza como base da competitividade brasileira.
Sobre a BCIW
A BCIW se consolidou como um dos principais hubs de mobilização de capital para a transição ecológica do país. A iniciativa nasceu da convergência entre a Converge Capital Conference, criada por Marina Cançado em 2019, e o Brazil NbS Investment Summit, lançado pela Capital for Climate em 2023. Nesta edição, o evento contou também com a co-organização do Instituto Clima e Sociedade e do Nature Investment Lab.