
Brasil pós-COP30: dos compromissos à implementação em escala
Brazil Climate Investment Week reúne investidores, empresas, setor público e sociedade civil para acelerar alocação de capital e avanço de negócios de impacto socioambiental
Produtividade e sustentabilidade são dois temas de enorme relevância econômica, mas que raramente aparecem juntos na mesma frase.
A produtividade está intrinsecamente relacionada ao crescimento econômico. Ao longo do tempo, o aumento da produtividade representa o principal fator capaz de explicar por que alguns países conseguem elevar de forma sustentada o padrão de vida de sua população enquanto outros permanecem estagnados.
Por isso, produtividade ocupa um lugar importante na teoria econômica. Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, sintetizou essa ideia em uma frase que se tornou clássica: “Produtividade não é tudo, mas, no longo prazo, é quase tudo”.
Mas, afinal, o que é produtividade? Em essência, trata-se da eficiência com que fatores como trabalho, capital, conhecimento e tecnologia são combinados para gerar bens e serviços. Quanto maior a produção obtida a partir de uma determinada quantidade de recursos, maior a produtividade.
Existem diferentes formas de mensurá-la. Algumas analisam fatores específicos, como a produtividade do trabalho ou do capital. Outras buscam captar a eficiência do sistema produtivo como um todo, como a Produtividade Total dos Fatores (PTF). Independentemente da metodologia utilizada, a questão central permanece a mesma: como gerar mais valor econômico utilizando melhor os recursos disponíveis?
No Brasil, essa pergunta é particularmente relevante. Desde o final da década de 1970, o crescimento da produtividade tem sido insuficiente para sustentar taxas mais elevadas de crescimento econômico. Trata-se de uma característica persistente da economia brasileira, observada ao longo de diferentes ciclos econômicos e governos.
Segundo o IPEA, os determinantes da produtividade podem ser agrupados em três níveis. O primeiro é o empresarial, que envolve fatores internos às firmas, como gestão, inovação, qualificação da mão de obra e qualidade do capital produtivo. O segundo é o estrutural, relacionado à composição da estrutura produtiva, aos encadeamentos entre setores e ao acesso a insumos de qualidade. O terceiro é o sistêmico, que engloba fatores como infraestrutura, ambiente regulatório, sistema tributário, concorrência e políticas públicas. Como se vê, produtividade é um fenômeno complexo, multidimensional e que envolve diversas áreas do conhecimento.
E sustentabilidade é parte fundamental dessa conversa.
Durante muito tempo, os debates sobre produtividade e sustentabilidade seguiram caminhos paralelos. De um lado, economistas discutem eficiência, crescimento e competitividade. De outro, especialistas em sustentabilidade alertam para os limites ambientais e os desafios sociais do desenvolvimento. Hoje, essa separação parece cada vez menos sustentável, em todos os sentidos da palavra.
Quando observamos os fatores que condicionam a produtividade no longo prazo, percebemos que ela depende de um conjunto muito mais amplo de ativos do que normalmente se supõe. Não apenas de máquinas, infraestrutura e qualificação da força de trabalho, mas também da qualidade das instituições, da capacidade de inovação, das relações de confiança que sustentam a cooperação econômica e dos ativos naturais que fornecem energia, água, estabilidade climática e outros serviços ecossistêmicos essenciais.
Esses recursos constituem estoques que geram fluxos de benefícios econômicos e sociais ao longo do tempo. Representam os fundamentos sobre os quais a atividade econômica se apoia. Quando esses capitais são ampliados, preservados ou utilizados de forma mais eficiente, aumentam a capacidade de geração de valor da economia. Assim, a produtividade de uma nação reflete a qualidade, o acúmulo e a interação entre diferentes formas de capital: natural, humano, físico, de conhecimento, social e institucional.
Para o Brasil, que combina, ao mesmo tempo, uma base de recursos naturais abundante e desafios sociais e institucionais complexos, essa discussão é absolutamente central. Temos vantagens competitivas importantes em energia renovável, agricultura tropical, biodiversidade e bioeconomia. Mas transformar essas vantagens em progresso econômico exige ganhos persistentes de produtividade e a capacidade de preservar os capitais que sustentam a atividade econômica e a produtividade, criando empregos de qualidade, elevando a renda do trabalho, promovendo inclusão social e ampliando o bem-estar da população.
Produtividade e sustentabilidade não representam, necessariamente, objetivos concorrentes, mas duas dimensões essenciais de uma mesma estratégia de desenvolvimento. Compreender essa interdependência é fundamental para construir uma economia mais dinâmica, resiliente e inclusiva.
É nesse contexto que o Instituto Itaúsa afirma seu compromisso em ampliar essa conversa e fomentar o diálogo na sociedade brasileira sobre o binômio produtividade & sustentabilidade. Assim, com “&” mesmo, conectando efetivamente essas agendas.
Se queremos construir um país mais próspero, precisamos compreender que a prosperidade do século XXI dependerá cada vez mais da nossa capacidade de conectar produtividade e sustentabilidade em uma mesma visão de desenvolvimento.
Sobre a autora
Consultora do Instituto Itaúsa na frente Produtividade & Sustentabilidade, Annelise Vendramin é professora e pesquisadora em finanças sustentáveis na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV (FGV EAESP). Doutora e mestre em Administração pela Universidade de São Paulo (USP) e certificada CFA ESG Investing, possui cerca de 30 anos de experiência em finanças corporativas, investimentos e estratégia. Sua agenda de pesquisa concentra-se na interface entre desenvolvimento econômico, produtividade, sustentabilidade e finanças, investigando como políticas públicas, mercados e instrumentos financeiros podem impulsionar a transformação produtiva necessária para uma economia mais competitiva, resiliente e sustentável.