Identificar quem pode financiar uma solução climática, em quais condições e em que momento do negócio é uma dificuldade recorrente para as climatechs brasileiras. Produzido pelo Fórum Brasileiro das Climatechs com apoio do Instituto Itaúsa, o Mapa de Financiamento para Climatechs no Brasil organiza os principais instrumentos disponíveis no país e orienta empresas que desenvolvem tecnologias para reduzir emissões e ampliar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
A iniciativa nasceu de uma dificuldade identificada em levantamento anterior do Fórum. Segundo Zé Gustavo, diretor executivo da organização, o acesso a capital é limitado também pela falta de informação sobre as fontes disponíveis e sua adequação às necessidades de cada empresa.
“Soluções climáticas muitas vezes têm ciclos longos de desenvolvimento e precisam de recursos compatíveis com esse ritmo”, explica, em entrevista para esta edição. Com o mapa, o Fórum busca reduzir essa assimetria de informação e aproximar empreendedores das organizações com maior aderência ao perfil de seus negócios.
O levantamento analisou mais de 220 organizações nas categorias de capital não reembolsável e capital de risco e selecionou 141 com potencial de financiar climatechs brasileiras. A publicação também detalha modalidades de crédito, mecanismos especiais e recursos não financeiros.
Para Zé Gustavo, o recorte revela um ecossistema de financiamento em formação, com diferentes possibilidades, mas ainda fragmentado. A presença de uma instituição no mapa não representa garantia de recursos para as empresas; oferece um ponto de partida para avaliar critérios, condições de acesso e alternativas que podem ser utilizadas ao longo de sua trajetória.
Cinco categorias para diferentes necessidades
Fundos filantrópicos, bancos e investidores de capital de risco avaliam negócios sob perspectivas distintas. Para ajudar os empreendedores a compreender essas diferenças, o guia apresenta cinco categorias:
- Capital não reembolsável: recursos concedidos sem obrigação de devolução ou cessão de participação societária, como subvenções, premiações e aportes filantrópicos. Podem apoiar pesquisa, desenvolvimento e validação de tecnologias.
- Capital de risco: investimentos em troca de participação societária, realizados por investidores-anjo, fundos de venture capital e outras modalidades. A perspectiva de retorno está associada ao crescimento e à valorização da empresa.
- Crédito: empréstimos e outros instrumentos de dívida, com condições de pagamento previamente estabelecidas. O acesso depende de fatores como capacidade financeira, garantias e maturidade operacional.
- Mecanismos especiais: estruturas como blended finance, que articula fontes de capital com diferentes perfis de risco e retorno; project finance, voltado ao financiamento de projetos; e contratos de compra futura. O guia também aborda o Fundo Clima e o Eco Invest Brasil.
- Recursos não financeiros: apoio técnico, mentorias, infraestrutura, pesquisa colaborativa e acesso a redes e clientes, que contribuem para fortalecer a capacidade de execução dos negócios.
Financiamento alinhado à maturidade do negócio
Antes de buscar uma instituição, Zé Gustavo recomenda que o empreendedor faça um diagnóstico da própria empresa. É preciso reconhecer o estágio de maturidade da solução, a necessidade imediata de recursos - para validação técnica, desenvolvimento de produto ou expansão, por exemplo - e as contrapartidas que o negócio pode oferecer. Esse diagnóstico permite consultar o mapa considerando o perfil de empresa atendido, os valores dos aportes e a tese de investimento de cada financiador.
As dificuldades são especialmente relevantes nas fases de pesquisa aplicada, validação tecnológica e desenvolvimento de produto. Algumas soluções demandam anos de pesquisa antes de chegar ao mercado, o que pode limitar sua compatibilidade com os prazos de retorno esperados por investidores. Nessas etapas, recursos não reembolsáveis, programas de fomento e parcerias de pesquisa ganham importância.
Com o avanço para operação, tração e escala, outras alternativas, como venture capital e crédito, podem se tornar mais adequadas. Essa evolução, porém, não elimina as lacunas de financiamento. Segundo Zé Gustavo, os riscos associados à operação também podem restringir o acesso a investimentos.
As condições variam ainda conforme a natureza da solução e o interesse de cada financiador em mitigação ou adaptação. “O ponto central é demonstrar claramente o problema climático que a empresa resolve, sua capacidade de execução e o estágio em que está”, afirma.
Na avaliação do diretor, viabilidade econômica, capacidade de execução da equipe e métricas confiáveis de impacto climático ajudam a qualificar o diálogo com as fontes de recursos. Esses atributos, ao lado da governança, também orientam o Instituto Itaúsa na avaliação de projetos apoiados.
Os casos da Regenera Moléculas do Mar, de biotecnologia marinha, e da Green Mining, de logística reversa, apresentados no guia, ilustram diferentes trajetórias de financiamento e ajudam a relacionar os instrumentos às necessidades dos negócios.
O papel das organizações doadoras
As organizações doadoras podem contribuir especialmente nas etapas em que o risco é elevado e a tecnologia ainda não está suficientemente madura para atrair investimento privado tradicional.
“O capital não reembolsável pode financiar pesquisa, validação tecnológica e desenvolvimento, permitindo que a climatech avance até um ponto em que outras fontes de recursos passem a enxergar aquele negócio como uma oportunidade”, explica Zé Gustavo.
Além do aporte financeiro, o apoio técnico, as conexões e a estrutura oferecidos por essas organizações ajudam a preparar as empresas, reduzir riscos e abrir caminho para investimentos futuros.
O apoio do Instituto Itaúsa ao mapa contribui para ampliar o conhecimento sobre o financiamento da transição. Ao tornar os mecanismos mais compreensíveis, o guia oferece aos empreendedores melhores condições para planejar a captação de recursos e o crescimento de suas soluções.
Faça o download do Mapa de Financiamento para Climatechs no Brasil.