Lançada em 4 de setembro, a Plataforma NetZero Brasil (NZB) permite construir e comparar trajetórias para que o país alcance emissões líquidas zero, avaliando as tecnologias, os investimentos e as transformações necessárias em diferentes setores da economia. Aberta e gratuita, a iniciativa de pesquisa aplicada reúne modelos de energia, indústria, agropecuária, uso da terra, transportes e resíduos em um mesmo sistema de análise.
O ano de chegada ao net zero pode variar conforme o cenário definido pelo usuário, com possibilidades como 2040, 2045 ou 2050. Em cada trajetória, a proposta é explorar combinações de escolhas capazes de equilibrar as emissões de gases de efeito estufa e suas remoções, considerando os custos e as implicações para a economia e o território.
O projeto NetZero Brasil se inspira em experiências internacionais de modelagem, como o estudo Net-Zero America (NZA), coordenado pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. A modelagem desenvolvida para os EUA compara trajetórias para alcançar emissões líquidas zero até 2050, detalhando as tecnologias, os investimentos e a infraestrutura envolvidos. A iniciativa brasileira adapta essa abordagem às características do país, especialmente às relações entre energia, agropecuária e uso da terra.
O Instituto Itaúsa apoia o projeto desde 2025, em linha com sua atuação na produção de evidências e na cooperação entre ciência, poder público e setor privado. A iniciativa amplia as condições para planejar a transição brasileira com mais segurança e avaliar alternativas de menor custo.
Uma decisão em um setor muda as condições dos demais
Tasso Azevedo, cocoordenador do NetZero Brasil e coordenador-geral do MapBiomas, explica que a principal contribuição da abordagem integrada é tornar visíveis as consequências de uma escolha para além do setor em que ela foi tomada.
A expansão dos biocombustíveis é um exemplo. Aumentar o uso de etanol ou biodiesel nos transportes altera a demanda por matérias-primas como cana, milho e soja, com efeitos sobre a agricultura e o uso da terra. Essa decisão também exige capacidade industrial, energia e infraestrutura para produzir e distribuir os combustíveis.
“Quando analisamos cada setor separadamente, parte dessas consequências fica invisível. Ao integrá-los, conseguimos comparar diferentes combinações e buscar trajetórias que alcancem o net zero com o menor custo possível, respeitando as restrições e as escolhas feitas para cada cenário”, afirma Azevedo.
Essa integração é especialmente relevante para o Brasil, onde agropecuária e uso da terra têm peso expressivo nas emissões. Considerar suas relações com o sistema energético permite avaliar com mais precisão o que cada trajetória demanda e quais incompatibilidades precisam ser resolvidas.