A escolha da economia que o Brasil quer construir deve orientar sua estratégia de descarbonização. Essa foi a reflexão apresentada por Marcelo Furtado, diretor executivo do Instituto Itaúsa, no painel de abertura da Conferência Brasileira de Clima e Carbono (CBCC) 2026, sob o tema “Do compromisso à ação: a natureza no centro das soluções climáticas”.
Promovida pela Aliança Brasil de Soluções Baseadas na Natureza, a quarta edição do encontro ocorreu nos dias 27 e 28 de agosto, no Memorial da América Latina, em São Paulo. A programação aproximou governos, empresas, investidores, academia e sociedade civil para discutir as condições de financiamento, integridade e implementação de soluções climáticas no país.
Ao compartilhar suas impressões sobre o debate, Furtado defendeu que o aumento da produtividade é uma condição para sustentar as respostas à mudança do clima. A capacidade de investir em mitigação, adaptação e no enfrentamento de perdas e danos depende de uma economia próspera, que gere resultados positivos para o clima, a natureza e as pessoas.
Ao comentar as pressões geopolíticas sobre a segurança energética e alimentar e os riscos associados ao El Niño, Furtado destacou a urgência de preparar a economia para os efeitos da mudança do clima. Para o Brasil, a resposta envolve reconhecer o valor econômico de seus recursos naturais e criar condições para que esse patrimônio se traduza em desenvolvimento.
Viabilidade econômica e prazo de implementação
Furtado propôs dois critérios para avaliar as soluções em discussão: sua capacidade de se sustentar na economia real e a possibilidade de implementação entre agora e os próximos cinco anos. A provocação traz ao debate o tempo necessário para organizar projetos, mobilizar recursos e produzir resultados.
O posicionamento internacional também faz parte dessa escolha. Segundo Furtado, o país precisa participar dos espaços em que são definidas as regras da transição para que natureza e capital natural sejam reconhecidos como ativos. Como exemplo, mencionou a disputa por espaço entre combustíveis sintéticos e biocombustíveis no contexto do CORSIA, o Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional. A disponibilidade brasileira de recursos naturais precisa ser acompanhada de capacidade tecnológica, articulação e estratégia de longo prazo.
Quatro desafios para avançar
A reflexão destacou quatro frentes que precisam caminhar de forma coordenada:
- Ambiente institucional e mercado regulado de carbono: criar condições para orientar decisões, dar previsibilidade e viabilizar a implementação de projetos.
- Integridade e credibilidade dos dados: sustentar a avaliação das soluções e de seus resultados com informações confiáveis.
- Mobilização e alocação de capital: aproximar os recursos disponíveis de projetos com condições de execução e escala.
- Desenvolvimento territorial e economia da adaptação: associar a resposta climática à geração de oportunidades e à resiliência nos territórios.
Para Furtado, a coordenação entre essas frentes exige uma política de Estado, com participação da academia, da sociedade civil, do setor privado e dos governos federal e subnacionais. A busca por convergência em torno de entregas concretas permite avançar mesmo quando persistem diferenças de visão entre os atores.
Soluções disponíveis e capital a ser direcionado
Marcelo Furtado citou um portfólio de 128 soluções climáticas em escala, prontas para receber investimento, como evidência de que já existem iniciativas capazes de sustentar essa agenda. Nesse esforço de articulação, mencionou parceiros como o CEBDS, a SBCOP, da CNI, e a C.A.S.E., além de empresas como Natura, Vale, Marcopolo, Itaú, Bradesco e Nestlé. Na sua avaliação, um dos desafios centrais é direcionar o capital para a implementação dessas soluções.
“O mundo não espera que o Brasil escolha entre natureza e desenvolvimento; espera que mostremos como transformar natureza em desenvolvimento - natureza como infraestrutura, natureza como tecnologia, natureza como forma de valorizar nosso capital natural, humano e cultural”, afirmou.
Essa perspectiva se conecta à frente de Produtividade & Sustentabilidade do Instituto Itaúsa, que apoia a produção de evidências e a articulação entre diferentes agentes para acelerar a transição econômica brasileira. A participação no debate reforça a importância de relacionar as decisões sobre clima e natureza à capacidade produtiva, ao financiamento e às condições de execução no país.